Ouvi dizer que o coração é extremamente necessário para vivermos, mas me vejo como a prova viva que essa teoria não é tão coberta de razão.
Pois bem, a um tempo vejo a frieza tomando conta dos meus dias, aos poucos do meu corpo, meus órgãos, minhas veias e artérias, minha corrente sanguínea, e por fim meu coração. Fria, congelada, sem sentimentos, sem demonstrações consideráveis de algum tipo de emoção, não há raiva, nem ódio, não há amor, não há nada aqui dentro. É como se todo o calor apaixonante que existiu aqui tivesse sido substituído por uma frieza que chegou bem mansa, se introduziu aos poucos e por fim me tomou por completo. Estou petrificada interna e externamente; por fora não mostro nem demonstro nada, tem uma película me separando do mundo lá fora, e por dentro não sinto nenhum tipo de emoção ou motivação, até meu cérebro parece estar congelando, esfriando, perdendo os sentidos e caindo numa imensidão de frieza que me protege do sofrimento.
As pessoas dizem que eu mudei, mas não citam se foi para melhor ou pior; já me disseram que enlouqueci, que parei no tempo, que me tornei insensível, que virei uma estátua sem vida que realiza as tarefas do dia e depois volta a ser puro mármore e granito, mas ninguém realmente sabe porque me tornei pó, mármore, granito, frio, neve, pedra, rocha e gelo em um único composto chamado "eu". Queria que entendessem que não foi vontade própria, só aconteceu, deixei de ser chama ardente para ser coração de gelo, troquei os sentimentos pelo vazio, troquei os sentidos por mera inspiração trazida pelo som do vento, foram as circunstâncias, a situação, os sofrimentos e as feridas que me fizeram chegar até aqui, foi isso que me manteve aqui até agora e prefiro ficar aqui, já que nada causa dor, prefiro assim, sem dores, sem amores, sem guerras nem perdições, prefiro frieza, fraqueza, solidão, uma estrada sem chão, noite vazia, céu azul sem imensidão, universo sem razão; "congelada no meu lugar eu deixo o momento escapar (Amy Lee)", eu ainda estou viva, mas não sentir a vida me apunhalando pelas costas é mais aliviador e me parece a melhor opção.
E então me mantenho fria, quieta, tendo um momento só meu, só para pensar, só para refletir, só para ver que se você quiser mesmo viver feliz, vai ter que aprender a ignorar, a não sofrer e a não sentir saudades, e então vai parar um dia de sentir de verdade, como eu, para alguns vem mais cedo, para outros mais tarde, mais uma hora ou outra vamos congelar sem nossos sentimentos. É como a história do Titanic, os sentimentos são o navio e nós somos os passageiros, então uma hora o navio afunda e nós congelamos no oceano.
E congelada estarei enfim, até o mundo acabar em pó, água, gelo e fogo. Estou aqui, sempre estive e sempre estarei. Não preciso que você me liberte, encontrei a liberdade me desfazendo desses sentimentos e me entregando ao frio.

Nenhum comentário:
Postar um comentário