sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Chuva de verão


                Primeiro uma, logo após duas e segundos depois estavam caindo infinitas gotas de chuva. Lavaram uma, duas, todas as mágoas que estavam aqui recobertas pela terra seca. Tocaram meu rosto, molharam meus cabelos, minhas roupas, mas não precisaram molhar meus olhos já cheios de lágrimas, mas ainda assim lavaram todo o ser pacato e cheio de desesperanças que estava aqui dentro. Os minutos passaram, as horas passaram e eu fiquei ali, sem muito o que fazer, apenas esperando que a chuva parasse e concluísse seu serviço.
                Abri a boca. As gotas de chuva escorreram pela minha garganta suavemente, entraram em contato com minhas células, preencheram meu corpo. Respirei aquele ar puro com gotículas molhadas, que  entraram em minha respiração e penetraram meu coração até chegar ao mais profundo e obscuro lugar do meu ser. O alívio foi instantâneo, injetou calma em todas as minhas veias, se espalhando por todo o corpo juntamente com o sangue.
                Então eu lembrei de quando dançávamos na chuva sem a mínima preocupação com resfriados ou olhares intrigados conosco, então eu lembrei outra vez que você desapareceu no meio de um sonho bom, evaporou  com um fumaça colorida e incandescente, simplesmente se foi... Eu te procurei nas esquinas, nas lojas, nos cantos improváveis, em todo lugar que pude, e, de repente eu percebi que você foi um sonho, um sonho que teve de acabar, e que você era como aquela chuva, passageiro, iria acabar mais cedo ou mais tarde, serviria apenas de aprendizado. E na hora que tomei consciência disso a chuva diminuiu o ritmo, e de repente parou, sem mais nem menos, apenas acabou, como você acabou, como você passou, como você se foi, as gotas de chuva ficaram marcadas em corpo, alma e coração, assim como todos os momentos estão na memória, no fundo de minha alma e no canto mais especial do meu coração.
 

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Pássaro negro

  Asas negras carvão cruzando o céu, minha visão tortuosa acompanha seu movimento suave e delicado através das nuvens de algodão espalhadas nesse céu infinito. Pássaro negro solitário, vai levando as mágoas, vai voando através dos sonhos e suavizando os medos,vai levando os segredos para um lugar distante. Me leva contigo em seu voo leve, vai mais além do que meus olhos enxergam, vai entrando em mim com sua essência escurecida, com suas viagens extensas pelo meu caminho, com suas canções eternas que me embalavam, vai tomando conta de mim, um pedaço por vez, um momento por vez, desfazendo um laço a cada vez que passa aqui. Cruza por dentro de mim, penetra meu coração e leva tudo embora, meu pássaro negro, meu eterno segredo, meu alívio vital.
  Meu pássaro negro, esperançoso, cauteloso, carinhoso. Toma conta de mim, não me deixe aqui sozinha, apenas cuide de mim, me acolha em suas asas carbonizadas de amor, faça cada dor ser uma pequena gota de chuva que se colide contra o chão e evapora com o sol. Seja minha única e verdadeira companhia, seja profundo em sua cor fortaleza, seja o tudo em meio ao caos do nada. Meu pássaro negro, vai indo pra longe, vai levando tudo embora, vai queimando todo o passado em seu coração de carbono, meu pássaro negro, se foi pra longe, levou tudo embora, queimou tudo no pretérito já vazio. Me protege dos desmoronamentos desse presente perto do fim e me aguarda em um futuro próximo, em uma campina, em uma montanha, lá no topo, me esperando para que eu encontre minha nova vida.
"Corvo
O corvo representa o mistério, a magia e uma mudança de consciência. Ele nos ensina a dar forma ao que é disforme. Ajudando-nos a confrontar nossas imperfeições, o Corvo nos lembra que temos o poder de transformar tudo o que temos coragem de encarar. Um metamorfo natural, o espírito do Corvo permite que usemos o disfarce necessário para cada situação, chegando ao ponto de nos tornarmos invisíveis para os demais. O Corvo nos ajuda a trabalhar a magia das leis espirituais para manifestar o que precisamos e para trazer a luz da escuridão"
(The Soul Seekers-Sonhos_Alyson Noël)
  Meu corvo voa sob meus ombros, suas asas me purificam, meus sentidos captam seus movimentos e meus olhos anseiam por sua chegada, por sua vinda ao meu encontro mais uma vez, muda minha vida, injeta minha metamorfose ambulante nas veias, me faz inteira, uma parte to teu ser, compartilhamos do mesmo sopro de vida, da mesma alma viva.
 

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Coração


 O médico me deu mais 3 anos de vida, a vida me deu um prazo pra ser feliz, eu sequei as lágrimas, mesmo que elas continuem a cair. Eu me levantei da cama e a tontura se manifestou outra vez, fui até o banheiro e me olhei no espelho, encarei minha própria imagem refletida e me perguntei o que eu teria feito da minha vida. Porque eu havia guardado todas as memórias, todas as mágoas, todas aquelas tristezas, porque eu havia guardado todo o meu passado dentro de mim? Porque eu havia guardado toda aquela bagunça emocional como frases ocultas em livros, como letras minúsculas em contratos de venda. E meu coração, dilacerado, aberto, ardente, maltratado e doente; doente de amor pela felicidade que eu tanto busco.
  Hoje eu acordei e o sol brilhava, apagando as sombras, apagando meus medos e então abri meu sorriso; aquele que já estava escondido em gritos de tristeza e lágrimas pesadas; olhei o céu azul que se estendia por todo o horizonte, olhei toda a luz contemplando a felicidade e da janela eu podia ver todo o mundo lá fora me esperando para ser feliz. O sol cor de ouro reluzente invadiu meu apartamento e deu alguns minutos de felicidade, inundou meus olhos com uma luz profunda, meu deu vida, me trouxe ar outra vez, me fez feliz, me trouxe lucidez.
  E a tristeza pode voltar quantas vezes ela quiser, a felicidade também vai vir quantas vezes ela quiser, vou receber a visita de uma delas todos os dias, não saberei quem , ou quando irá chegar. Feliz ou triste estarei vivendo, chorando, sorrindo, enfim, vou aproveitar o que vier de alguma forma, reciclar as emoções e tentar me levantar do meu retiro de vida.

sábado, 1 de setembro de 2012

Morta em vida

  Eu poderia refletir diversas vezes diversas palavras para te escrever, mas eu acho muito mais fácil escrever algumas poucas frases sem sentido como você fazia naquelas cartas que eu recebia todos os meses em meu apartamento, com a sua assinatura e nenhuma informação proveitosa nas linhas. Mas enfim, seria muito fácil dizer que eu estou muito bem e que eu continuo minha vida normalmente, mas ao mesmo tempo seria uma tremenda mentira, e você sabe que eu não gosto de mentir. Pois bem, eu não estou nem um pouco bem, tenho chorado constantemente e meus dias são mais longos do que eu esperava, me falta ar, eu realmente não queria estar aqui. E se perguntar se eu estou infeliz, eu realmente não preciso responder. Nenhuma sensação brota aqui dentro, eu estou morta em vida, estou vivendo por viver, fazendo tudo por fazer, apenas uma obrigação e divertimento não é uma palavra que eu tenha conhecimento.
  E eu não estou esperando por nada, nem pela vida, nem por um sinal, um ponto-chave, eu não que mais nada, só me deixe em paz, eu sei que a expectativa de vida por aqui é grande, mas sei lá, mais cedo ou mais tarde a morte passa silenciosamente por nós e leva tudo embora. Tudo que um dia veio para as mãos, um dia flui através dos dedos para além das dimensões dos sonhos, além das dimensões da vida, além de todos os conceitos da morte.
  Meu testamento está na minha escrivaninha. E adivinha? Não deixei exatamente nada para você, estou rindo feito louca, tomando uma taça de vinho tinto e queimando as rosas vermelhas que você me mandou. Eu não preciso de você, não preciso do seu amor, aliás, não preciso do amor de ninguém, me deixe seguindo meu caminho sozinha, sete chaves me trancam e me protegem de toda essa coisa que acontece ao meu redor. E de repente o silêncio toma conta de tudo, o som do vento não atinge muitos decibéis em meus ouvidos, e o silêncio se prolonga, pode ser a morte chegando, pode ser a morte te levando, pode ser a vida se estendendo.